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O silêncio das balas: lições que a escola deixou de ensinar

A fila que passa na televisão e viraliza nas redes sociais não tem nome. Cada número anunciado é um eco que volta vazio: mais uma vida que não chegou a ser futuro. Muitos comemorando, outros em espanto. A banalidade da morte virou paisagem, estatística e manchete.


No Rio de Janeiro, uma megaoperação policial deixou mais de 100 mortos. É o maior número já registrado em uma ação desse tipo. A manchete veio, os corpos se enfileiraram no meio da comunidade, um gesto para lembrar o poder letal de uma sociedade que se cala. Nos dias seguintes, a vida seguiu. Algo semelhante aconteceu em Gaza, onde mais de cem pessoas foram mortas em um cessar-fogo mediado de longe, entre negociações diplomáticas e a poeira das ruínas, os tomadores de decisão jamais pisariam no meio da Faixa de Gaza ou do Complexo do Alemão. As duas notícias, separadas por continentes, espelham a mesma tragédia: a vida perdeu o valor narrativo. Morre-se tanto que a morte já não causa notícia, apenas repetições.


A educação, que sonhamos ser o grande projeto civilizatório, falha em explicar a raiz do tráfico e a lógica da desigualdade. Se ensina química, mas não se fala do pó que sustenta impérios e destrói famílias. Se ensina geografia, mas não se discute o território que aprisiona e a distribuição de espaço que valoriza os Jardins e amontoa as comunidades. Ensina-se ética, mas não se combate o racismo estrutural que determina quem vive e quem morre na frente de uma arma. Forma-se professores, mas não lhes dá ferramentas para entender o que se passa fora do portão da escola.


Quando uma pessoa da comunidade segura uma arma, não o faz apenas por escolha, mas também por falta delas. O faz por ausência. Falta o Estado, falta o trabalho, falta o pão, falta o abraço. Faltou a Educação. O tráfico surge em paralelo à noção de pertencimento. Ele ensina o que a escola não consegue: poder, reconhecimento e sobrevivência. É uma espécie de “currículo oculto” de uma sociedade que substituiu o verbo educar por punir.

Paulo Freire nos lembra que a educação libertadora é um ato de coragem — coragem de dizer o nome do mundo, de enfrentar as causas da opressão. Mas, em muitos casos, a escola fala de cidadania sem falar de miséria, pede disciplina a quem nunca teve perspectiva de futuro, e celebra o mérito de poucos como desculpa para o fracasso de muitos. A cada operação policial, a cada “efeito colateral”, a cada corpo caído, a lição que a escola deixou de ensinar é a de que toda morte é um fracasso coletivo.


Em 2019, a polícia encontrou 117 fuzis em um imóvel ligado ao assassinato de Marielle Franco. Nenhum tiro foi disparado, os alvos eram apenas suspeitos e a investigação pedia cautela. Em 2025, a mesma quantidade de armas foi apreendida, comunidades inteiras se apavoraram sob a violência e mais de cem vidas se perderam. Pobres, pretos e pardos.


O livro Dinâmicas do Mercado de Drogas Ilícitas no Brasil (Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, 2022) demonstra que o tráfico se instala onde o Estado é ausente e a economia, informal. Nasce como resposta à falta: de oportunidades, de renda, de políticas públicas. É uma pedagogia da sobrevivência em um país que oferece pouco além da morte como destino. Mas sua raiz verdadeira não está nas vielas, e sim nas avenidas largas do capital. O tráfico floresce nas comunidades, mas é nutrido pelos fluxos financeiros que circulam entre bancos, bolsas de valores e paraísos fiscais. A engrenagem da violência não se move pela pobreza, mas pelo lucro. O mesmo pó que adoece corpos na periferia impulsiona índices na economia global, em cifras que se misturam à especulação, à lavagem de dinheiro e ao consumo de luxo. A favela é o cenário visível da guerra, mas o comando real opera de terno e gravata, nas altas esferas de um mercado que transforma o vício em ativo e a morte em moeda.


Na mesma direção, Cabeça de Porco (Ed. Objetiva, 2005, p. 296 p.) mostra que o tráfico é, muitas vezes, o espelho invertido da escola: ele oferece pertencimento, liderança e remuneração, ainda que à custa da própria vida. Quando o jovem aprende, pela bala, que vale mais morto que educado, a escola já perdeu sua batalha simbólica. Mas o silêncio também é bala. O silêncio das salas de aula que evitam o tema, o silêncio das universidades que tratam a violência como objeto distante, o silêncio dos governos que transformam necropolítica em rotina administrativa. Cada omissão é um estilhaço. Cada ausência de diálogo é um disparo simbólico.


O governo do Rio de Janeiro preferiu bancar a chacina. Usa o fato como palco político, transforma o horror em discurso de autoridade e a morte em demonstração de poder. Enquanto isso, as elites seguem no pó branco, movendo o mesmo mercado que condenam publicamente. Os políticos, confortáveis em seus gabinetes, terceirizam responsabilidades e silenciam diante do sangue derramado. A polícia, também pobre, torna-se o braço visível de uma opressão que ela própria sofre. Homens e mulheres com baixos salários, submetidos a péssimas condições de trabalho, vivendo o risco diário da morte. São peças substituíveis da engrenagem que mantém a roda do tráfico e do lucro girando.


Essa semana, foram mais de cem mortos: alguns policiais, a maioria jovens rotulados como traficantes. E tudo segue. O terror choca, mas logo se acomoda. Afinal, pobre tem aos montes, e sempre haverá quem ocupe o espaço deixado pelos que caíram. É o ciclo perfeito da barbárie: o Estado finge que combate o mal, a sociedade finge que se comove, e a economia subterrânea segue produzindo dividendos.


No fundo, o que sustenta essa máquina não é o fuzil, mas o consenso social de que certas vidas valem menos. Quando a morte se torna rotina, a humanidade se perde em meio ao ruído dos tiros e ao silêncio das escolas. A educação, se ainda quiser ser remédio, precisará voltar a ensinar que cada corpo tombado é um livro não lido, uma história interrompida, uma aula que nunca aconteceu.


Porque nenhuma sociedade se ergue sobre o som das balas. Só sobre o poder da palavra.




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3 comentários


Harry Blake
28 de nov. de 2025

Reading “The Silence of Bullets: Lessons Schools Failed to Teach” reminded me how often crucial truths go unheard, much like data hidden in plain sight. It made me reflect on my own journey as I Edit my scientific research paper turning raw observations into coherent narratives, giving structure and voice to findings that might otherwise remain overlooked. Every sentence revised, every argument clarified, feels like rescuing knowledge from silence. Just as the article sheds light on untold lessons, careful editing illuminates the essence of research, ensuring its impact isn’t lost.

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peter
27 de nov. de 2025

Reading that post made me think about how sometimes schools leave a lot unsaid, and it’s easy to feel overwhelmed when responsibilities pile up. I remember a time when I felt lost trying to keep track of assignments and deadlines, and I found myself thinking it would’ve been great to have a best Canvas course assistance service to help me stay organized and on top of everything. It’s a reminder that a bit of support can make a big difference when you’re struggling to keep up.

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nik
27 de nov. de 2025

That’s a thought‑provoking post. I once spent hours reading an article that challenged what I thought I knew about education and how silence what’s not said can shape people’s lives. Engaging with that made me appreciate the need for real support and guidance, especially in tough situations. It reminds me how vital having access to online PhD exam help services can be when you’re navigating complicated academic or personal pressures.

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