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Leituras para o tempo das retrospectivas: o ano está acabando, que tal ler um livro?

Dezembro chegou, não bateu na porta e entrou sem pedir licença. Uns o recebem com champanhe, outros com listas atrasadas, muitos com a fantasia de que, entre o Natal e o Ano Novo, o tempo vai finalmente aprender a andar mais devagar. Não aprende. Mas aceita negociar. É por isso que chamamos esse período de “férias coletivas”, mesmo sabendo que não há nada muito coletivo nisso; é cada um tentando costurar um descanso possível dentro do turbilhão de visitas, panetones e compromissos afetivos que se acumulam como as luzes na sala. Ainda assim, há algo de precioso nessa suspensão parcial da realidade. Os dias ficam mais longos. Os silêncios também. E, quando a correria diminui meio passo, abrimos espaço para uma pergunta que a rotina costuma interditar: o que é, afinal, descansar? Para muitos, é desligar. Para outros, é simplesmente deslocar o olhar. Eu diria que descansar é permitir que a própria mente respire, que ela volte a ter arestas e profundidades, que recupere aquele brilho que o ano insiste em apagar.


E é aqui que a leitura, querida leitora e querido leitor, faz seu trabalho silencioso. Ler não é uma interrupção do descanso. É uma forma mais refinada de descanso. Enquanto a cabeça viaja para dentro de um livro, os ruídos externos diminuem, as emoções encontram um ritmo mais estável e o pensamento se reorganiza sem obedecer às cobranças do calendário. Ler, nesse período entre festas, te ajuda a abrir uma janela nova na casa: entra ar, entra luz e você se sentirá a renovação. Por isso, este prenúncio de férias não é só um convite ao convívio. É também um convite ao recolhimento. Às pequenas pausas de sofá. Aos instantes em que alguém nos chama para a mesa e respondemos “já vou” sabendo que vamos demorar mais uma página. Dezembro precisa de pequenas insubordinações. A leitura é a mais elegante delas.


Assim, trago como penúltimo artigo do ano, algumas sugestões categorizadas para que você possa transitar entre 2025 e 2026 com um novo hábito — o de ler para si mesmo.

 

Para silenciar a mente

 

A Elegância do Ouriço” de Muriel Barbery (Ed. Companhia das Letras, 2008, 352 p.) é um romance que transforma a rotina em filosofia e ensina que a sensibilidade é, às vezes, a forma mais alta de resistência. Já “A Trança”, de Laetitia Colombani (Ed. Intrínseca, 2021, n.p.), nos traz três vidas distantes que se entrelaçam num gesto literário que reafirma a força das mulheres diante do impossível. Enquanto isso, em “O Avesso da Pele” (Ed. Companhia das Letras, 2020, 192 p.), Jeferson Tenório proporciona um mergulho emocional que ilumina o que o racismo destrói silenciosamente nas famílias e na alma.

 

Para iluminar a casa

 

Que tal uma história que pulsa como canto ancestral e devolve à terra o lugar de testemunha da dignidade humana? Para isso, leia “Torto Arado”, de Itamar Vieira Junior (Ed. Todavia, 2019, 264 p.). Outra possibilidade é voltar ao mundo das fábulas e, para isso, “O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo”, de Charlie Mackesy (Ed. Sextante, 2020, 128 p.), se revela como um texto que abraça quem o lê e lembra que vulnerabilidade também é força. E, já que Natal traz a família, o livro “O Filho de Mil Homens”, de Valter Hugo Mãe, (Ed. Biblioteca Azul, 2016, 224 p.), é uma boa pedida de romance que reconfigura o sentido de família e mostra que afeto é uma invenção possível.

 

Para abrir janelas internas

 

Se você, assim como eu, gosta de repensar a vida, os projetos e os planos na virada de ano, “Ensaio Sobre a Cegueira”, de José Saramago (Ed. Companhia das Letras, 2020, 312 p.) é uma leitura devastadora, mas que obriga a enxergar a humanidade justamente onde ela falha e, claro, nos cobra propósito para os atos cotidianos. Já Brené Brown abre nossos olhos em “A Coragem de Ser Imperfeito”, (Ed. Sextante, 2016, 208 p.), e mostra que para pertencer a si mesmo, respeitar as nossas vulnerabilidades torna-se o caminho mais honesto para viver com inteireza.

 

Para quem precisa parar sem parar

 

"Nove Noites", de Bernardo Carvalho (Ed. Companhia das Letras, 2006, 152 p.) é uma investigação literária que prende pelo mistério e permanece pelo desconforto intelectual, é uma leitura para mentes inquietas. Assim como "O Morro dos Ventos Uivantes", de Emily Brontë (Ed. Principis, 2019, 368 p.), que nos arrasta para uma tempestade emocional e revela como a obsessão e a paixão podem ser facas de dois gumes.

 

Para reencantar-se com o cotidiano

 

Poesia Completa”, de Manoel de Barros (Ed. LeYa, 2013, 408 p.) revela a simplicidade em versos que devolvem ao mundo sua capacidade de espanto ao resgatar grandezas escondidas no ínfimo. Já “A Parte que Falta”, de Shel Silverstein (Ed. Companhia das Letrinhas, 2018, 112 p.), faz uso da busca incessante e dos vazios da vida em uma metáfora de afeto que nos constrói como pessoas.

 

Para lembrar da democracia e da educação

 

Como as Democracias Morrem”, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt (Ed. Zahar, 2018, 272 p.) persiste no alerta contundente sobre os mecanismos discretos que corroem o pacto democrático. Já em Paulo Freire, encontramos a “Pedagogia do Oprimido” (Ed. Paz & Terra, 2019, 242 p.) que traz um chamado radical para transformar a sala de aula em espaço de libertação. Em “A Escola com que Sempre Sonhei”, Rubem Alves (Ed. Papirus, 2001, 128 p.) tece uma reflexão poética que lembra por que educar é, antes de tudo, um ato de desejo.

 

Para se deliciar na literatura

 

Os Miseráveis” (Ed. Martin Claret, 2014, 1511 p.), de Victor Hugo, é um épico moral que revela a grandeza humana justamente onde ela é mais negada. Enquanto “Dom Quixote” (Ed. Principis, 2019, 304 p.), de Miguel de Cervantes, apresenta a aventura que inaugura o romance moderno e redefine o limite entre loucura e imaginação. Agora, se você quer se aventurar por romance contemporâneo, “A Redoma de Vidro” (Ed. Biblioteca Azul, 2019, 280 p.), de Sylvia Plath, traz uma narrativa que tornou visível o colapso mental e abriu caminho para a literatura da vulnerabilidade. Claro que não pode faltar um clássico, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Ed. Penguin-Companhia, 2014, 368 p.), de Machado de Assis, se mantém como uma das sátiras mais brilhantes que desmonta o leitor enquanto ri da própria humanidade.

 

Para começar janeiro com fôlego

 

Em “A Regra é Não Ter Regras” (Ed. Intrínseca, 2020, 352 p.), Reed Hastings e Erin Meyer trazem uma provocação que questiona estruturas rígidas e propõe liberdade como motor de inovação. Agora, se você quer se motivar a ler e escrever, a leitura de “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus (Ed. Ática, 2015, 200 p.), expõe a brutalidade da desigualdade e faz da escrita um ato de sobrevivência. Outra leitura que nos reforça a assumir o controle é “A Arte de Fazer Acontecer” (Ed. Sextante, 2015, 320 p.), de David Allen, que reorganiza o caos do cotidiano e devolve autoridade ao próprio tempo. Enquanto “O Jeito Harvard de Ser Feliz”, de Shawn Achor (Ed. Benvirá, 2012, 216 p.), apresenta uma síntese envolvente de ciência e bem-estar que mostra que felicidade não é um resultado, mas um treino.

 

No fim das contas, querido leitor e querida leitora, talvez dezembro não tenha sido feito para grandes resoluções, mas para pequenos realinhamentos. É nesse intervalo rarefeito, entre o que já fomos e o que ainda não sabemos ser, que a leitura pode encontrar sua força mais silenciosa. Cada livro desta lista não é uma fuga, mas uma forma de voltar: voltar a si, voltar ao mundo, voltar ao que realmente importa quando o barulho das obrigações finalmente diminuir.




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