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A nova magreza de Hollywood: O que Wicked revela sobre o corpo-padrão atual

Novembro de 2025 trouxe o lançamento de um dos filmes mais aguardados do ano: Wicked: Parte 2. Assim como os inúmeros filmes dos Vingadores e o superblockbuster Barbie (2023), o Wicked dominou o mercado com uma presença enorme nas redes sociais e no mundo físico, através de merchandising e grandiosos eventos de lançamento ao redor do mundo. Mas o curioso é que o que mais se fala nas redes é sobre o corpo das três atrizes principais: Ariana Grande, Cynthia Erivo e Michelle Yeoh, que parecem estar mais magras do que nunca. Comentários preocupados, especulações sobre distúrbios alimentares, elogios disfarçados de preocupação — a nova estética corporal das atrizes virou centro de conversa. E isso não é coincidência. A estética da magreza voltou a tomar o centro do palco. Não só em Wicked, mas em toda Hollywood. E o caso de Ariana não é exceção.


Desde o fim da era da popularização das cirurgias de glúteos volumosos até o renascimento da “heroin chic” dos anos 90, o que se observa é um retorno à magreza extrema como símbolo de poder, controle e beleza. Ariana Grande, Meghan Trainor e Kim Kardashian são citadas repetidamente como parte dessa virada estética — ainda que nenhuma tenha comentado diretamente o assunto.


No caso de Ariana, os holofotes se intensificaram porque sua mudança corporal aconteceu diante do público. Em 2023, a cantora relembrou que a aparência que tantos consideravam “ideal” era justamente aquela de seu período menos saudável. Desde então, passou a receber ataques também por estar “pequena demais”. Mas essa é a armadilha: quando a cultura dita o ideal, o corpo vira vitrine — e punição — ao mesmo tempo.


Uma das tensões centrais do debate é o desconforto de falar sobre corpos magros. O feminismo contemporâneo teme ser injusto. Mas silenciar diante de padrões cruéis também é omissão. Como mostram alguns artigos que discutem Wicked, o problema nunca foi a magreza em si, mas a sua fetichização. Não é sobre culpar atrizes específicas, mas sobre questionar o sistema que recompensa a estética da privação.


Essa nova onda de corpos ultramagros não aparece sozinha. Ela surge ao lado de discursos sobre bem-estar, rotinas de autocuidado, jejum intermitente, disciplina. A magreza reaparece, mas com uma nova roupagem: ela agora é “limpa”, “estudada”, “biohackeada”. Ou até mesmo como influenciadores digitais adoram dizer: estética “clean girl”. Isso torna essa nova moda ainda mais perigosa, pois é mais fácil de negar.


Há algo profundamente dissonante em ver Wicked, um musical que sempre defendeu a diferença, se transformar em vitrine do corpo-padrão mais restritivo que Hollywood já produziu. Elphaba sempre representou aquilo que foge da norma: a menina verde, que não cabe nos moldes, mas que, mesmo assim, brilha, ama e voa.


Agora, Elphaba e sua companheira de cena aparecem com corpos tão irreais quanto inatingíveis. Chega a ser irônico: como o filme pretende celebrar e enaltecer aqueles que se sentem deslocados, por meio de corpos extremamente “perfeitos” e ultramagros que o mercado valoriza. E então, a magia do musical — sua potência como metáfora da diferença — colide de frente com a estética que a indústria, silenciosamente, voltou a promover.


No fim das contas, talvez o maior feitiço de Wicked não esteja nos efeitos especiais, nem nas canções poderosas, mas na forma sutil com que a indústria reconstrói velhos padrões sob novas fantasias. É preciso atenção para não confundir representatividade com transformação, e cuidado para não aceitar como empoderamento o que, na prática, é só mais uma exigência mascarada. Porque quando até as bruxas precisam caber na estética da magreza extrema, fica claro que a liberdade ainda é, muitas vezes, uma performance. E talvez a varinha mágica mais perigosa dos nossos tempos seja a tão cobiçada “canetinha”.




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