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Contra a pressa, o encontro

Passamos o ano inteiro reclamando da falta de tempo. Falta tempo para ler, para escrever, para estar com quem gostamos, para escutar com calma, para pensar com profundidade. O curioso é que raramente nos perguntamos o que, de fato, fazemos com o tempo que temos.

Porque tempo não é apenas medida.


É escolha. É valor. É, sobretudo, relação.


Penso nisso sempre que converso com uma amiga professora que, todos os anos, organiza a vida financeira e o próprio corpo em função de um único objetivo. Ver os filhos que moram no exterior. Economiza onde pode, adia vontades, aceita o cansaço das longas viagens. Me pergunto se é turismo, percebi que há uns anos deixou de ser, trata-se de presença. Cada dia junto é vivido com intensidade. Ali, o tempo não é contado em horas, mas em gestos. Um almoço longo, uma conversa sem celular, um silêncio compartilhado. O relógio existe, mas não manda.


Também penso na minha tia Cássia, a Doraci que apresentei uns artigos atrás. Ela entendia o tempo de um jeito que pouca gente entende. Em Diadema, entre um escadão e outro, ela parava. Às vezes cinco minutos, às vezes horas inteiras. Não para resolver problemas, porque nem sempre havia solução. Parava porque percebia a necessidade de escutar. Pessoas falavam da vida, das dores, das injustiças, das pequenas alegrias. Ela ouvia, não acelerava, não interrompia. O tempo ali era permanente, suspenso. Não servia para produzir nada, mas sustentava tudo.


Ao longo do ano, vemos exemplos assim o tempo todo, embora nem sempre os reconheçamos. O professor que fica depois da aula porque percebe que um aluno precisa falar. A coordenadora que transforma um corredor em espaço de acolhimento. A mãe que se senta na beira da cama mesmo exausta. O amigo que escuta sem tentar consertar. São tempos que não entram em planilhas, mas constroem vínculos duradouros.


Vivemos, porém, sob a lógica da relativização constante do tempo. Tudo é rápido, urgente, descartável. O tempo vira algo que se perde, se ganha, se economiza. Como se fosse mercadoria. Mas há um outro tempo, menos visível e mais necessário. Um tempo permanente. Aquele que permanece mesmo quando o relógio anda. É o tempo da escuta, da leitura lenta, da conversa sem finalidade prática.


A literatura sempre soube disso. No decorrer do ano, aprendemos em Momo (Ed. WMF Martins Fontes, 2012, 266 p.), que roubar o tempo das pessoas é uma forma sofisticada de empobrecê-las. Na A Sociedade do Cansaço (Ed. Vozes, 2015, 136 p.), entendemos como essa aceleração contínua nos adoece e diminui nosso tempo em vida. Já Em Busca do Tempo Perdido (Ed. Nova Fronteira, 2017, 2472 p.) nos lembra que o tempo não se recupera correndo atrás dele, mas mergulhando na memória, na atenção e na sensibilidade.


Talvez o grande desafio não seja ter mais tempo, mas aprender a habitá-lo melhor. Reconhecer que há momentos que pedem pressa, sim, mas há outros que exigem permanência. Que nem toda conversa precisa chegar a uma solução. Que escutar já é, muitas vezes, o gesto mais transformador.


Ao fim deste ano, talvez a pergunta mais honesta que cada um possa fazer não seja “o que eu fiz esse ano?”, mas “a quem e ao que eu dediquei meu tempo?”.


Porque o tempo que oferecemos aos outros, quando é verdadeiro, não se perde. Ele fica, se sustenta. Ele permanece.


A pressa não é apenas um problema de agenda. É uma forma de esquecimento. Quando corremos demais, deixamos de registrar o que importa. Os dias passam, mas não permanecem. E um ano inteiro pode virar apenas um amontoado de tarefas cumpridas, sem memória, sem marcas, sem histórias que valha a pena revisitar.


No fim, não é o tempo que nos escapa ou que se acaba. Somos nós que, muitas vezes, ignoramos sua essência. E cada vez que escolhemos ficar, escutar, partilhar, criamos uma fresta de permanência em meio ao fluxo apressado da vida. Contra a pressa, o encontro. Sempre.




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