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O apagão de atenção: dos jovens aos adultos e idosos, quem aí lembra do que jantou ontem?

Há algumas semanas, enquanto revisava mais uma rodada de mensagens de professores para confirmar inscrições, envio de certificados, datas, horários e links de sala, me deparei com um padrão que já não se deixa esconder. O apagão de atenção não é só um fenômeno entre adolescentes ou crianças nativos digitais. Ele nos atravessa a todos. E digo isso como alguém que, nos últimos cinco anos, conversou, formou, acolheu e lidou com mais de 65 mil professores. É desse lugar que escrevo.


Chegamos a discutir em um ou outro artigo neste jornal sobre o ler pouco e ler direito. Mas aqui vamos tentar ir além. Porque o que vejo não se resume a “ler pouco” ou “não prestar atenção”, me parece mais profundo. É como se gerações inteiras — incluindo a nossa — fosse educada a capturar apenas o início da frase, não o seu sentido.


Um exemplo singelo, repetido à exaustão do meu cotidiano: envio um e-mail com quatro parágrafos. No segundo, respondo a dúvida central. E, como relógio, chega a resposta: “Professor, onde encontro essa informação?”. Está lá. Na quarta linha. Literalmente. Mas ninguém mais desce até ela.


Essa dissolução de foco, cada mais crescente, de permanecer no texto por mais de oito segundos virou quase uma forma de vida. Não é descuido, tampouco preguiça. É o sintoma de um modelo cognitivo que se reorganizou sem pedir nossa opinião. Nicholas Carr já nos alertava, em A Geração Superficial (Ed. Agir, 2019, 150 p.), que a leitura online reorganiza trajetórias neurais e favorece saltos, não aprofundamentos.


Mesmo nas mensagens instantâneas, aprendemos a criticar áudios longos. Afinal, ninguém quer ouvir um “podcast involuntário” no meio da tarde. E, se o áudio ousa ultrapassar trinta segundos, a reação automática é recorrer ao acelerador: 1,5x, 2x — como se tentássemos espremer tempo onde já não existe mais espaço. Até as séries de streaming e os vídeos na internet agora oferecem o mesmo recurso de aceleração. Tudo pode, e deve(?), ser consumido mais rápido. “Ninguém tem tempo”, dizem. Mas tempo existe. O que parece começar a sumir é a disposição para permanecer com algo na velocidade que ele foi criado.

Entendo que esta aceleração não nos dá mais tempo, mas nos faz perder camadas. E, quando tudo se torna uma experiência comprimida, também nós nos tornamos versões comprimidas de nós mesmos. Cada vez mais impacientes, intolerantes ao detalhamento, avessos ao percurso. Como se a vida fosse feita apenas de chegadas, nunca de travessias.


Há um trecho de Byung-Chul Han, em O Aroma do Tempo (Ed. Relógio D'Água, 2016, n.p.), em que ele afirma que a aceleração crônica dissolve a capacidade de experiência. Não porque impede de viver, mas porque rouba o intervalo que permite que o vivido se transforme em sentido. E é justamente esse intervalo que essa cultura da aceleração pode eliminar a naturalmente.


O problema, entendo eu, é que educar, amar, pesquisar, formar redes, trabalhar, tudo isso exige intervalos. Exige permanência, alguma dose de lentidão mínima. Exige um tipo de atenção que não cabe em 1,5x. Será esse o drama do nosso tempo? Desejamos relacionamentos profundos, mas conversamos em fragmentos. Queremos aprender mais, mas assistimos tudo em modo acelerado. Queremos qualidade intelectual, mas cultivamos apenas hábitos de sobrevivência cognitiva.


Quando entro em uma sala de aula, física ou virtual, percebo que o esforço necessário para sustentar dois minutos de atenção contínua parece hercúleo. Há um incômodo físico, um tique, um deslocamento interno que empurra o corpo para fora da experiência. Não só entre alunos, vários professores também sofrem desse desassossego inquieto.


Talvez seja este o ponto mais honesto dessas questões: o apagão de atenção não é geracional. É estrutural. Na escola, tentamos responder com metodologias ativas, jogos, projetos, dinâmicas, como se a solução fosse oferecer mais estímulos, quando o problema é justamente o excesso deles. Educar hoje parece exigir um número infinito de distrações para competir com a distração infinita do mundo.

 

Cal Newport, em Trabalho Focado (Ed. Alta Books, 2018, 304 p.), aponta que a capacidade de atenção profunda é o diferencial humano mais raro e mais disputado do século. Paradoxalmente, é justamente aquilo que estamos perdendo mais rápido. Ao olharmos para o mercado de trabalho, vemos uma disputa por profissionais capazes de ler relatórios densos e compreender contextos complexos. As empresas clamam por leitura crítica, interpretação, consistência. E, ao mesmo tempo, fomentam ambientes multitarefa que, não raras as vezes, anulam tais competências.


Será este um tipo de esquizofrenia organizacional? Nos cobram foco, mas nos forçam rotinas que o destroem?


Em minha vivência com centenas de professores, percebo que não falta disposição; falta espaço mental. Entre uma aula e outra, uma plataforma, uma demanda, um relatório, uma falta de infraestrutura e a mediação de conflitos, o cérebro, até então local de pensamento, transformou-se num campo de batalha. A atenção não some só porque a tecnologia nos distrai. Ela some porque estamos sendo esmagados por forças simultâneas que exigem que sejamos tudo o tempo inteiro.


Quando um professor não lê até a quarta linha de um e-mail, ele não está “falhando”. Ele está reproduzindo o modo de atenção possível neste contexto. Um modo fragmentado, acelerado, espasmódico. Nosso tempo funciona assim. Nossos cérebros foram moldados assim. O problema é que essa atenção cortada impede algo maior: impede pensamento.


Sem atenção profunda, não há análise. Sem análise, não há crítica. Sem crítica, não há autonomia. E, sem autonomia, não há sociedade que se sustente. Tenho tentado reencontrar essa atenção nas pequenas e grandes coisas: no gosto e no aroma de um pão francês às cinco da manhã, nas centenas de e-mails diários, em cada livro, cada texto novo, cada conversa que atravessa minha rotina. Às vezes, demoro para responder, mas, quando respondo, faço inteiro, presente, atento. É uma tentativa de exercício diário de devolver densidade ao que o mundo insiste em tornar raso.


E você, como tem cultivado sua atenção?




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